O avanço da idade é considerado um fator importante para o processo de cicatrização da pele. A boa notícia é que cuidados com a alimentação e modificações no estilo de vida previnem complicações.

Bastardos inglórios, Exterminador do futuro 2, Batman, Rei Leônidas, O fantasma da ópera. Em todos esses filmes, os protagonistas têm uma coisa em comum: marcas de ferimentos em seus rostos. No cinema, a ideia é enfatizar o drama, causar forte impressão, tornar inesquecíveis o personagem e sua história. Na vida real, as cicatrizes são um exemplo do que Hipócrates, o pai da medicina, definiu como natura mediatrix, isto é, a força saneadora da natureza.

Quando o organismo sofre algum tipo de agressão, um fenômeno natural ativa uma série de reações para recuperar sua estrutura e funções originais. As lesões podem ser internas, como no caso de uma úlcera no estômago, ou externas, isto é, na própria pele. Se forem superficiais, haverá uma regeneração tecidual; mas, se forem profundas e/ ou extensas, com maior destruição de tecidos, técnicas e recursos complementares auxiliarão o processo de restabelecimento, levando ao que se conhece por cicatrização, que poderá será mais ou menos evidente, dependendo da pele de cada um.

A função da epiderme é proteger o corpo de agressões externas, e elas podem ser de natureza física (quedas, atritos, queimaduras, cortes); química (contato com ácidos) ou biológica (picadas de animais, plantas venenosas). Se a lesão é grave, a consequência é o aparecimento de feridas, manifestação da quebra das estruturas naturais da pele.

A recuperação da pele

Samuel Henrique Mandelbaum, dermatologista, chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Taubaté (SP), explica que, de acordo com o tipo do ferimento, “haverá uma reação que envolve uma série de mecanismos denominada cascata cicatricial. Trata-se de uma sequência de eventos que compreende três fases: inflamatória, proliferativa e remodelação”.

Coagulação e contração são outras etapas citadas pelo dermatologista Roberto Gomes Tarlé, preceptor da Residência em Dermatologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “são respostas que interagem entre si para o restabelecimento da integridade dos tecidos.”

Peles maduras

Durante a juventude, esse processo tende a ser mais rápido e eficiente. Mas, com o passar dos anos, e principalmente na idade madura, os tecidos passam por transformações (reepitelização) e diminuição do colágeno. Dependendo do histórico de cada um, fumo, álcool e sol também influenciarão. E não é só.

Alterações metabólicas, vasculares, imunológicas, doenças crônicas (diabetes, hipertensão), típicas dessa faixa etária, fazem desse grupo de pessoas o mais suscetível a traumas e infecções. Segundo Felipe Bochnia Cerci, médico residente do Serviço de Dermatologia da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba da PUC-PR, é comum encontrar indivíduos desnutridos ou com deficiências vitamínicas. “Esses fatores, entre outros, podem ser os responsáveis pela dificuldade da reparação tecidual”, diz.

Maria Helena Sant’Ana Mandelbaum, coordenadora científica da Sociedade Brasileira de Enfermagem em Dermatologia, concorda, e acrescenta: “Somem-se a isso a maior incidência de feridas crônicas em pessoas com mais de 60 anos, seja pela maior recidiva, seja pelo surgimento de feridas decorrentes de doenças sistêmicas”.

Fatores diversos

A idade é fator de risco para a boa cicatrização, mas existem outros problemas que a influenciam, como o uso de medicamentos ou drogas imunossupressoras. “Corticoides diminuem a formação de novos vasos e a proliferação de células importantes para o processo cicatricial (fibroblastos)”, esclarece Tarlé.

Localização, tamanho, profundidade, presença ou não de infecção, tecido desvitalizado, doenças que possam comprometer a circulação periférica, bem como as que interfiram no metabolismo da cicatrização (câncer e tuberculose), são outras causas que podem retardar ou obstruir o restabelecimento da pele. E até os cuidados com o ferimento merecem atenção, pois limpezas muito agressivas podem remover as células que compõem a reparação tecidual. Proteger a ferida com um curativo é medida útil para evitar infecção bacteriana, que pode ser outro empecilho. “Além disso, alguns antissépticos são nocivos às células da nossa pele, como a água oxigenada”, adverte Cerci.

Prevenção é a chave

Mas, se não podemos controlar a passagem do tempo, a dermatologista Gabriela Casabona, do Hospital Samaritano (SP), afirma ser possível agir de forma proativa, o que em medicina significa prevenir. “O primeiro passo é a alimentação: inclua opções saudáveis que não excluam boa quantidade de frutas, legumes e verduras, pois esses alimentos são ricos em antioxidantes e nutrientes úteis para os processos metabólicos.” E acrescenta: “É importante se movimentar. Um estudo canadense mostrou que um mínimo de 6 horas de exercícios semanais garantem equilíbrio do metabolismo após os 45 anos e ainda protege contra agressores externos”.

O queloide

mulher-2Todo esse cuidado com a saúde em geral não exclui o aparecimento de uma cicatriz definida como anárquica, exagerada, e que ultrapassa os limites da ferida nas bordas laterais, na sua superfície e profundidade: o queloide. Maria Helena fala que esse tipo de cicatrização continua a ser um enigma. “Nenhum gene específico ou conjunto de genes foi identificado. No entanto, o fato de a pele mais morena estar associada a um aumento da prevalência sugere uma base genética.”

Segundo um estudo publicado pelo Journal of Cosmetic and Laser Therapy (outubro/2010), dirigido por Luca Scrimali, do departamento de Cirurgia Plástica da Universidade da Catânia (Itália), ainda não se sabe por que o queloide se forma, pois não existem modelos animais, já que essa cicatrização é típica dos humanos.

Gabriela Casabona esclarece que esse tipo de cicatriz é mais comum em negros e mestiços, mas existe uma predisposição individual. E pode ocorrer em todas as faixas etárias, embora raramente seja encontrado em recém-nascidos ou pessoas idosas. “Ele é mais comum em indivíduos de 10 a 20 anos, e, nesse grupo, as mulheres são a maioria”, observa Cerci.

E quais seriam suas causas? De acordo com os especialistas, traumas físicos como perfuração do lóbulo da orelha, cirurgias, acnes e varicela são os principais fatores desencadeantes. “Porém a presença de material estranho ou aumento da tensão da pele podem levar à sua formação”, explica Tarlé. “A cicatriz pode aparecer até espontaneamente. E um dos locais mais frequentes é o meio do peito”, diz Maria Helena.

Os principais problemas com Cicatrização

Queloide: processo de cicatrização anárquico e exagerado. Há um crescimento excessivo do tecido para além das bordas da ferida original. Na maioria das vezes, não regride espontaneamente.
Escara ou úlcera de pressão: lesão cuja causa é a pressão local permanente, geralmente nas proeminências ósseas. As consequências são danos nos tecidos subcutâneos, músculos, articulações e ossos, causando a morte dos tecidos (necrose).
Edema: inchaço decorrente do acúmulo de líquido nos tecidos do corpo. No caso das cicatrizes, é resultado do acúmulo do excesso de líquido sob a pele, dentro dos tecidos.
Inflamação: resposta de um tecido a uma lesão, que pode ser traumática, infecciosa etc. Caracteriza-se pelo aumento do fluxo sanguíneo para o tecido, propiciando o aumento da temperatura, vermelhidão, inchaço e dor.
Coagulação: processo complexo pelo qual o sangue forma coágulos. É uma parte importante da interrupção da perda de sangue e da recuperação de um vaso sanguíneo danificado (hemostasia), na qual sua parede é coberta por uma plaqueta e fibrina (proteína relacionada aos coágulos).

Como tratar das feridas

1. Examine: observe a lesão para identificar elementos como local, tamanho, profundidade, presença de corpos estranhos, sujeira, secreções, pus, sangue, dor e odor. Com essas informações, será mais fácil a comunicação com o médico, caso seja necessário.
2. Limpe: toda ferida precisa ser higienizada. Portanto, remova toda impureza, corpos estranhos, secreções e elementos presentes sobre a ferida e ao seu redor. Prefira o uso de soro fisiológico, água destilada ou filtrada. Na falta dessas opções, use água limpa fervida.
3. Proteja os tecidos sadios: tecidos mortos e desvitalizados precisam ser removidos, para evitar infecção dos tecidos sadios próximos.
4. Mantenha a umidade: a ferida deve ser protegida com um curativo ou cobertura que permita a troca gasosa, a coleta dos líquidos e eventuais secreções. A medida garante umidade apropriada à região: nem seca, nem úmida demais. Este é considerado um dos aspectos mais importantes para a adequada cicatrização.
5. Evite alergias: crianças, idosos e pessoas de pele frágil devem escolher material apropriado para fixar curativos ou coberturas. A pele ao redor do ferimento deve ser mantida sem agressões.

Esta matéria contou com a colaboração da Dra Gabriela Casabona.

Link: http://revistavivasaude.uol.com.br/saude-nutricao/94/artigo208176-1.asp